Praia

warning: Creating default object from empty value in /home/ademirguerreiro/ademirguerreiro.net/modules/taxonomy/taxonomy.pages.inc on line 34.

Conhecendo o ambiente da praia

  • Os alunos estão conhecendo melhor as características desse ambiente.

  • Observando o tipo de areia, água, geografia da região, fauna, poluição e aprendendo sobre a História que envolve esse ambiente e a cidade de Santos.

Características da Praia

"O mar
quando quebra na praia
é bonito... é bonito."
Dorival Caymmi

As areias brancas emolduram poemas, canções de romances e de guerras, histórias de conquistas e de derrotas.

 

Areias douradas guardam as pegadas dos pescadores e as marcas da exploração sem critérios de preservação.

 

Areias finas e acinzentadas guardam os poemas dos pioneiros e as manchas do petróleo perdido no mar.

 

As areias das dunas se movem ao sabor do vento e sob as rodas dos buggies dos turistas.

 

As areias das restingas desenham lagoas e abrigam portos, pólos petroquímicos e seus indesejáveis resíduos.

 

Areias que recebem o carinho do mar e o lixo que o homem despeja quase sobre si mesmo, como se não soubesse que a onda do mar leva, a onda do mar traz.

 

Na linguagem dos pesquisadores do mar, as praias devem ser conceituadas como ambientes sedimentares costeiros, formados, mais comumente, por areias de composição variada e afeiçoadas pela interação dos sistemas de ondas incidentes sobre a costa.

 

Em outras palavras, as praias são realmente aquilo que parecem ser: o resultado da ação das ondas sobre a areia, formando os arcos nas enseadas entre os rochedos e as longas linhas de praia nas bordas dos continentes.

 

Embora as praias ocupem uma pequena parcela da superfície total da crosta terrestre, é significativa a sua ocorrência ao longo das costas tropicais e temperadas do mundo. As regiões costeiras vêm ganhando cada vez mais importância socioeconômica; as praias arenosas oceânicas são ecossistemas que ainda carecem de estudos que avaliem o impacto de sua ocupação.

 

No Brasil, especialmente, as praias assumem destacada importância, porque se distribuem ao longo de toda a costa. Apenas no extremo norte elas são quase totalmente substituídas por planícies de marés dominadas pela lama proveniente dos grandes rios da região. No restante da costa brasileira, multiplicam-se as atividades comerciais, industriais e de turismo, promovendo a urbanização e a ocupação por vezes desordenada das praias.

 

As campanhas de esclarecimento, por enquanto, concentram esforços na limpeza das praias e na divulgação de condições de balneabilidade. Embora louváveis, são esforços limitados e claramente direcionados para a preservação da imagem dos balneários e os rendimentos do turismo. É urgente o aumento do investimento em pesquisa para que se aprofunde o conhecimento sobre as nossas praias, com o objetivo de preservar o equilíbrio estrutural desses ecossistemas.

 

Em alguns pontos do litoral, esse desconhecimento sobre o frágil equilíbrio das praias já causou problemas sérios, como é o caso de Atafonas, no norte do estado do Rio de Janeiro.

 

A cidade, que fica na barra do rio Paraíba do Sul, já teve mais de dois quilômetros de ruas, casas e instalações públicas ocupados pelo mar. Vários fatores causaram essas mudanças, entre eles às alterações no fluxo do rio e a destruição da vegetação e dos manguezais das margens do estuário. Mas foi o desconhecimento da dinâmica das praias da região e a falta de informação sobre os sistemas de ondas que incidem na costa que concorreram para o rompimento do equilíbrio do ecossistema.

 

São muitas as intervenções humanas que provocam alterações nas praias, mas é importante reconhecer os mecanismos naturais que constantemente redefinem a linha da costa.

 

Do ponto de vista da história geológica, as praias são tão antigas quanto os continentes. Desde a última grande variação do nível do mar na costa brasileira, a tendência tem sido de regressão contínua. Nos últimos 5.100 anos, o nível do mar recuou cerca de 4 ou 5 metros, configurando as praias arenosas, as feições de barreiras e outros depósitos arenosos na linha da costa.

 

Nas últimas décadas, no entanto, os dados coletados têm evidenciado uma elevação do nível do mar em dezenas de centímetros por década. Os pesquisadores atribuem as causas desse fenômeno a dois fatores: uma mudança do ciclo natural planetário ou o aquecimento provocado pelo efeito estufa.

 

Eventos como tormentas e furacões, e mesmo situações menos poderosas, como tempestades tropicais ou passagem de frentes frias, podem provocar alterações permanentes ou transitórias nos perfis de praias. Mas a constante ação das ondas, milhares, milhões de ondas arrebentando insistentemente, é o que constrói e destrói as praias, molda as linhas da costa.

 

As ondas surgem da ação do vento sobre o mar. As rajadas exercem variação de pressão, que provoca, em resposta, oscilação vertical na superfície da água. O vento passa então a empurrar essa ondulação, que vai aumentando de altura, comprimento e velocidade até um limite que depende da velocidade do vento. Para tanto, é necessário que o vento sopre por certo tempo ao longo de uma distância mínima chamada "pista". É por isso que ondas geradas numa lagoa não atingem o mesmo desenvolvimento que no mar: por falta de espaço mínimo para a formação da pista.

 

Uma vez geradas, as ondas mantêm suas trajetórias, mesmo fora da área de ação do vento. Uma onda se modifica a partir do momento em que começa a sentir o efeito do fundo. Isso ocorre quando a profundidade da água é igual ou inferior a 1/4 do comprimento da onda. O comprimento de uma onda é medido pela distância entre duas cristas sucessivas. Seguindo o princípio de conservação de energia, a queda na velocidade de propagação das ondas em função da diminuição de profundidade provoca o crescimento em altura. A onda vai ficando cada vez mais "esbelta" , até que perde o equilíbrio e arrebenta.

 

A capacidade de uma onda realizar trabalho - como mobilizar sedimentos - depende de sua energia, que é função direta da altura da onda. Uma onda de 2 metros de altura tem uma energia quatro e não duas vezes superior à de uma onda de um metro. Os surfistas conhecem bem essas características das ondas, pois é aproveitando essa energia que eles deslizam sobre as águas.

 

E mesmo brincando nas pequenas ondas, bem na beirinha da água, é possível desenvolver noções de quebra das ondas, de surfe, de espraiamento e de refluxo (ou repuxo).

 

Quando ficamos na areia, olhando para o mar, vendo o eterno movimento das ondas, os olhos se distraem e a mente viaja. É difícil ficar pensando em forças, ângulos de incidência e outras questões técnicas. Mas quando chegamos a uma praia, é bom perguntarmos a pescadores e moradores quais as características do fundo. Uma praia de tombo, por exemplo, vai abruptamente do raso ao fundo e as ondas muitas vezes arrebentam bem próximo da areia.

 

As praias mais longas - em que o nível da água vai aumentando aos poucos - atraem as crianças, que podem caminhar um pouco mais na direção do mar. Mas de repente a onda cresce e é preciso que o banhista esteja atento para poder voltar, porque o repuxo às vezes é forte.

 

O perfil transversal de uma praia varia com o ganho ou perda de areia, de acordo com a energia das ondas. Os pesquisadores trabalham com dois estágios extremos. Um deles é o refletivo, que é o cenário da praia de tombo. Ali é forte o declive da face da praia e da plataforma continental adjacente.

 

A zona de surfe é curta e toda a turbulência da arrebentação acontece bem na face da praia. O estoque de areia normalmente é pequeno, e os grãos geralmente são mais grossos. É o caso de praias do Rio de Janeiro, do litoral norte do estado de São Paulo e do arquipélago de Fernando de Noronha. Essas praias são mais suscetíveis a processos erosivos, como é fácil verificar nas situações de ressacas ou fortes tempestades.

 

O estágio oposto é o dissipativo, onde a zona de surfe é extensa em função da pequena inclinação da topografia e do grande estoque de areia, geralmente fina. As ondas de alta energia encontram espaço para sua dissipação e a praia - ou face praial, como os especialistas chamam o espaço onde a areia é seca - apresenta claramente as marcas da larga variação das marés, ainda graças à pequena inclinação. Assim são as praias do litoral sul do estado de São Paulo, do Rio Grande do Sul e de outras regiões.

 

As praias dissipativas são menos suscetíveis à erosão, porque as ondas têm bastante espaço para dissipar sua energia. Talvez por aparentar estabilidade, essas praias são ocupadas, muitas vezes, sem os devidos cuidados.

 

Na ilha do Mel, litoral do Paraná, por exemplo, toda uma comunidade de pescadores - e alguns veranistas - perderam casas e terrenos por causa de um movimento natural de transporte de sedimentos. A praia praticamente mudou de lugar e a ilha do Mel está quase se dividindo em duas. Na outra face, o embarcadouro está se afastando cada vez mais, fazendo com que os turistas, em alguns instantes, pareçam caminhar sobre as águas.

 

Mas de onde vem todo esse sedimento?

 

Não importa onde se localizem, as praias são feitos de materiais sólidos e solto que esteja disponível: areia, cascalho, seixos, conchas, grãos de rocha vulcânica. A maior parte desse material é transportada pelos cursos d'água desde as montanhas ou regiões próximas. A rocha, desgastada pelo calor, pelo frio, pelo vento, pela chuva e por reações químicas, é decomposta em partículas de tamanhos diferentes, que se depositam na foz dos rios.

 

A maior parte das praias do litoral brasileiro foi construída por um abundante estoque de sedimentos trazidos pelos rios e que se acumularam na plataforma continental. A erosão de depósitos sedimentares continentais também representou uma contribuição importante na construção das praias brasileiras. Hoje, essas fontes representam pouco na manutenção dos perfis das praias.

 

As ondas que quebram na praia mantêm as partículas superficiais de areia em movimento quase constante. No verão, quando as ondas são pequenas, a areia é empurrada contra a praia, formando um declive íngreme. No inverno, as ondas, mais vigorosas, golpeiam a praia, arrastam a areia para o mar e a depositam ao largo, em bancos de areia.

 

As ondas atingem as praias em ângulo ligeiramente obtuso, provocando um deslocamento gradual ao longo da costa com o transporte de sedimentos. Essa corrente costeira é responsável pela distribuição das praias ao longo da costa. Não fosse assim, só haveria praia junto às barras dos rios. É por isso que alguns especialistas consideram a praia como um rio de areia que corre entre duas "margens" virtuais, representadas pelo limite exterior da zona de arrebentação e pela faixa de areia em terra.

 

A corrente costeira associada ao movimento das ondas, transporta para as praias as partículas decompostas de conchas e outros materiais de origem biológica. As marcas evidentes desse transporte estão na linha do deixa, que, além de exibir o material próprio do ambiente, evidencia o estilo de vida da população local. E não é só lixo que estraga a paisagem.

 

O trabalho de monitoramento ambiental realizado nas praias do litoral gaúcho, por exemplo, demonstra as perdas cotidianas que a natureza sofre na imensidão do nosso litoral.

 

"A praia do Cassino é uma restinga de mais de duzentos quilômetros até o Chuí. O objetivo principal do Nema (Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental) é detectar o que está acontecendo na dinâmica da praia, tanto com relação às atividades humanas quanto das atividades dos animais, dos mamíferos marinhos, das tartarugas etc. O maior exemplo da necessidade do nosso trabalho é o desperdício dos recursos marinhos, já que uma grande quantidade de biomassa praticamente não é aproveitada pelo homem e está sendo exterminada pela pesca predatória.

A transformação desses comportamentos e atitudes começa na educação, no conhecimento sobre o mar, sobre o ecossistema em que o pescador e sua família vivem. Já são inúmeras as experiências, inclusive do próprio Nema, no Rio Grande do Sul, de transformação no comportamento de pescadores e de mudanças sociais da comunidade, que passam a conviver com a informação integral dos ciclos de vida que ocorrem entre o mar e o homem.

 

Os pescadores de Jericoacoara, como em toda a costa, preferem as praias protegidas para preparar seus barcos, para armar suas redes. Essa praia de armação é protegida parcialmente por uma duna, a primeira de um campo de dunas que se estende por cerca de vinte quilômetros. As dunas se formam em locais onde a velocidade do vento seja grande, constante e haja disponibilidade de areia fina.

 

Essas condições são mais comuns em praias do tipo dissipativo, as mais longas, onde as ondas arrebentam longe da areia, como ocorre na região de Jericoacoara.

 

Nos ambientes de mais alta energia, as dunas frontais se tornam mais largas e instáveis. A maior velocidade do vento as transforma, criando lençóis de areia e dunas transversais à direção do vento predominante.

 

Além do litoral do Ceará, a região nordeste do Brasil apresenta vários campos de dunas, como os dos lençóis maranhenses e as famosas dunas de Natal e Genipabu (RN). Os lençóis do Maranhão se abastecem dos sedimentos dos deltas dos rios da região, com suas areias de grãos bem finos. A área é preservada graças à pequena ocupação humana, mantendo suas características originais.

 

Em Natal e Genipabu já existe uma preocupação com o turismo e a atividade comercial derivada. A vegetação ajuda na fixação das dunas e as lagoas embelezam mais ainda a região, criando mais alternativas para o lazer. É um trecho em que também foi grande a contribuição dos sedimentos terrígenos carreados pelos rios. Hoje, essa contribuição já não é tão importante, principalmente pela construção de barragens que diminuem a capacidade de transporte dos rios.

 

Do nordeste para o sul: as dunas também são presenças constantes no litoral do Rio Grande do Sul. Naquela região, os campos de dunas não se estendem tanto para o continente. A partir do promontório rochoso de Torres, as dunas se formam ao longo do litoral, como num cordão, desenhando o anteparo para as lagoas características da região.

 

Várias espécies de aves, migratórias ou não, utilizam esse ecossistema para repouso e alimentação, retirando da areia os poliquetas, moluscos e pequenos crustáceos de que se alimentam.

 

As condições especiais da região de Cabo Frio (RJ), cercada pelo Oceano Atlântico e pela lagoa de Araruama, propiciaram a formação de seu campo de dunas e a exploração das salinas, responsáveis por um impulso de ocupação da área, no século XIX. Gradativamente, a região dos lagos, no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, foi sendo ocupada por outras atividades econômicas e a especulação imobiliária valorizou os terrenos para construção de residências de veraneio e atividade turística e de lazer.

 

Não ocorreram mudanças ambientais que contribuíssem para o declínio da produção de sal. As próprias dificuldades da atividade salineira e a falta de investimento em novas tecnologias é que fazem com que hoje se aterrem salinas para surgirem novos loteamentos.

 

Outra região da costa brasileira que apresenta características propícias para a produção do sal marinho é a área de Macau, no oeste do estado do Rio Grande do Norte. Ali, a exploração do sal já se iniciou sobre novas bases tecnológicas e também encontrou mão-de-obra disponível para produzir mais de 70% do sal marinho brasileiro.

 

As plataformas construídas para facilitar a evaporação são posicionadas na direção dos fluxos de vento, que aumentam a energia das praias onde se localizam as áreas de produção.

 

A adaptação da vida na areia é bastante difícil, a começar pelas constantes modificações do meio. O substrato - ou base - está sempre em movimento, tanto pela ação da água como do vento. Os grãos de areia chegam a ter menos de um milímetro, e não são muitas espécies que conseguem permanecer e se alimentar.

 

Na parte submersa, onde a ação das ondas não é sentida e a profundidade ainda permite a passagem da luz, os microorganismos do fitoplâncton conseguem se desenvolver, tornando-se alimento para várias espécies que vivem no fundo. São as espécies conhecidas como bentos, que vivem na zona bentônica do mar.

 

Poucos peixes habitam a zona de arrebentação, e os que ali vivem devem ser capazes de suportar grandes variações de suprimento de água e de temperatura. Alguns deles, como o coió, têm nadadeiras peitorais largas que os ajudam a se movimentar pelo fundo. Outros apresentam discos ventrais sugador que lhes permite ficar aderidos ao fundo mesmo em águas turbulentas. E alguns "engolem" a areia, para tirar dela as microalgas e outros nutrientes, e expelem os grãos limpos. Só algumas espécies se aproximam da arrebentação quando há algas suspensas, boiando na região de espraiamento.

 

Ainda há algumas praias, pouco freqüentadas pelo homem, em que é possível encontrar boa quantidade de caranguejos. Quando o homem passa a freqüentar a praia, eles desaparecem e já começam os prejuízos para a cadeia alimentar do ecossistema. Assim como nos manguezais e estuários, os caranguejos cumprem importante papel no processo de decomposição de algas e outros vegetais, e na remobilização da areia.

 

Talvez as maiores intervenções humanas no ecossistema praia sejam as estruturas construídas para a pretensa defesa do litoral. São espigões para ampliação ou "engorda" de praias; molhes ou barras utilizadas na estabilização de canais de acesso a portos, estuários e desembocaduras de lagoas; e quebra-mares construídos paralelamente à costa, com o objetivo de protegê-la do ataque direto das ondas.

 

Muitas dessas obras foram e ainda são executadas em caráter de emergência e muitas vezes sem o competente estudo dos reflexos dessas estruturas para as áreas adjacentes. Normalmente o que ocorre é a transferência do problema para a praia seguinte ou para o interior de estuários ou baías. E o resultado, na maior parte das vezes, é a erosão de praias e outras áreas da costa menos resistentes ao impacto das ondas.

 

É verdade que existem causas naturais, como a recente tendência de aumento do nível do mar e as passagens de frentes frias, por exemplo. Mas em muitas regiões do litoral do Brasil há o represamento de rios, com a conseqüente diminuição da quantidade de sedimentos despejada no mar.

 

As praias deixam de receber novos fluxos de areia e não conseguem exercer sua função dissipativa da força das ondas.

 

O mar, quando quebra na praia, não é só bonito. Não é só poesia. É um ecossistema dinâmico que nos oferece muito. Dá-nos prazer, alimento e beleza. Mas exige nosso respeito e humildade para que possamos aprender com ele

Divulgar conteúdo