ecossistema

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Manguezal e as suas características

Os alunos estão observando o manguezal e presenciando as características faladas em sala de aula como:

  1. Os pneumatóforos

  2. Raízes aereas

  3. Tipo de solo

Mangue o berçario da vida

A vida se recompõe a cada instante. A decomposição da matéria orgânica é o próprio recomeço de tudo. O manguezal já impressionou muita gente, principalmente os colonizadores europeus, que não estavam acostumados com estuários margeados por árvores que crescem sobre a lama, estranhos caranguejos e insetos.

 

 

Ainda hoje, quem não está habituado, estranha esta paisagem e tem de se preparar para entrar no manguezal, mas muitas pessoas vivem nesse ambiente e dele retiram seu sustento.

 

 

Estamos convivendo com o manguezal há muito tempo. Algumas das maiores cidades do Brasil, como Recife, Vitória e Rio de Janeiro, ocupam extensas áreas desse ecossistema ao longo do litoral. Os pesquisadores já alertam há um bom tempo sobre a importância do manguezal para a vida no mar. Para preservar, é fundamental conhecer e aprender a lidar com o meio ambiente.

 

Neste programa vamos conhecer melhor as características e os encantos dos manguezais do Brasil. Vamos olhar de perto o berçário do mar.

 

 

Os manguezais são ecossistemas costeiros das regiões de clima quente do planeta. Estão localizados na faixa entre a maré alta e a maré baixa, junto à foz dos rios, no interior de baías, estuários e outros locais protegidos da ação das ondas do mar, onde a água doce e a água salgada se misturam em diferentes proporções.

 

 

Os manguezais no Brasil se estendem desde o Oiapoque, no Amapá, até Laguna, em Santa Catarina. Mais ao sul as temperaturas são muito baixas para o desenvolvimento das espécies do manguezal.

 

 

A faixa sul-sudeste da costa do Brasil apresenta manguezais exclusivamente em baías, estuários e áreas protegidas da grande energia do mar. É o caso do complexo estuarino da região de Iguape e Cananéia, no litoral sul do estado de São Paulo.

 

 

"Na região de Cananéia, temos três espécies de árvores de mangue. Uma delas  é conhecida como mangue vermelho, Rhizophora mangle. A característica principal dela, e mais marcante, é a presença das raízes escora ou risóforos, que são adaptações a um sedimento pouco consolidado. Chama-se mangue vermelho porque, se rasparmos seu tronco, poderemos observar que por dentro ele é vermelho. A casca do mangue vermelho é utilizada para extração de tanino.

 

 

Outra espécie comum aqui na região é o mangue siriúba, ou mangue preto, que é a Avicennia schaueriana. A característica marcante dessa espécie - e que a difere do mangue vermelho - é a presença de pneumatóforos, que são as raízes respiratórias. O mangue preto tem um sistema de raízes que chamamos de raízes radiais, também uma adaptação a esse sedimento pouco consolidado. Quando a maré sobe, essa raiz começa a fazer as trocas gasosas.

 

 

A terceira espécie de árvore de mangue que ocorre na região de Cananéia é o mangue branco, a Laguncularia racemosa. Uma característica dessa espécie é a presença de um pecíolo vermelho, que é o cabo da folha. Essa espécie também tem um sistema radicular radial, adaptado ao sedimento pouco consolidado, só que difere um pouco pelo tamanho um pouco menor do pneumatóforo.

  

Tanto no mangue preto quanto no mangue branco, o pneumatóforo também serve como substrato para algas e outros organismos".

 

Essas espécies são predominantes também ao longo de toda a costa brasileira.

 

A principal diferença entre os manguezais brasileiros está em suas dimensões. Nas regiões norte e nordeste, onde a variação dos limites entre as marés é maior, o manguezal apresenta bosques com até 30 metros de altura. A ilha do Caju, no delta do Parnaíba, é uma área praticamente livre da ação humana. Apesar disso, os pesquisadores já detectam os sinais da falta de cuidado com as margens dos rios e com a ocupação das franjas dos manguezais.

 

E o material orgânico daqui - as folhas do manguezal e o próprio resíduo urbano, industrial e doméstico das cidades - é todo carreado para o mar. Esse tipo de delta de mar aberto (delta do rio Parnaíba) tem esse problema: por ser de mar aberto, o delta não tem pequenos igarapés, que favoreceriam o processo de transformação dessa matéria orgânica em nitrogênio e enxofre para as novas proteínas. O material orgânico é diretamente perdido para o mar. A falta de proteínas ocasiona a perda de biomassa e todas as populações são diminuídas. Isso quer dizer o seguinte: o hábitat natural de uma conchinha, por exemplo, é em sedimento lodoso. Nos locais em que já houve deposição de material silicoso, observa-se uma grande quantidade de valvas abertas, mortas. A população delas seria muito maior, não fosse a deposição irregular do material silicoso carreado pelo rio".

Ainda em função do trabalho de preservação da ilha do Caju, é possível encontrar uma fauna rica e bem desenvolvida, como os belos caranguejos-uçá. A produção dos manguezais do delta do Parnaíba ainda é muito grande: os catadores da região fornecem caranguejos para todo o norte e nordeste, com algumas sobras para exportação. Mas a maior parte da produção de carne de caranguejos na região é processada ainda em regime familiar, gerando uma renda insuficiente.

 

Foi à exploração predatória do manguezal, associada à destruição do hábitat, que praticamente esgotou a produção de caranguejos na região de Recife, em Pernambuco. A captura é feita, muitas vezes, com redes de plástico que emaranham os animais e matam indiferentemente filhotes machos e fêmeas. O resultado é o empobrecimento da energia produtiva do ecossistema e da população que vive em torno do manguezal.

 

A lama escura do manguezal é banhada pelas águas salobras do estuário. Quando a maré recua, os caranguejos saem da toca. Eles realizam um importante trabalho de movimentação constante do sedimento do manguezal, construindo galerias e trazendo para a superfície parte dos sedimentos, rica em nutrientes, que vai ser transportada pelas águas do estuário na próxima maré.

 

Se a captura de caranguejos for muito superior à capacidade de reprodução das espécies, o manguezal perderá um elo muito importante da sua cadeia alimentar. É verdade que os caranguejos se reproduzem em boa quantidade, mas é importante encontrar um ponto de equilíbrio, uma forma sustentável de explorar esse recurso do ecossistema.

 

Em todos os ecossistemas, cada espécie é essencial para a montagem da cadeia alimentar. No manguezal isso é evidente. Nele o sedimento é fino, quase sempre lodoso, trazido pelos rios e pelo mar. As folhas, frutos, flores e galhos que caem das árvores do manguezal servem de alimento para alguns animais que vivem nesse ambiente. As sobras são trabalhadas por organismos como o teredo, que é uma espécie de molusco que perfura galhos e troncos de árvores caídas, e por alguns insetos e caranguejos.

 

A decomposição desse material particulado é feita por bactérias e fungos e resulta em nutrientes para as algas que se desenvolvem na coluna de água do estuário.

 

As algas e outros materiais orgânicos assimiláveis formam o principal alimento das larvas e jovens peixes, camarões, caranguejos, siris, ostras e mariscos (ou sururus) que povoam o ecossistema. Um grande número de espécies marinhas freqüenta os estuários margeados por manguezais em busca de alimentos, proteção e ambiente propício para a reprodução.

 

"O mangue é muito importante para criar os caranguejos. Tinha uma época em que o caranguejo vivia com liberdade, andava à vontade. Então, você ia lá, pegava, escolhia os bons, os melhores. E trazia os caranguejos para a alimentação da sua família, das visitas. Hoje é só comércio. Os caranguejos estão acabando. Porque tem uma certa turma, eles vão no mangue, pegam o caranguejo, tiram as patas, aproveitam e soltam o coitado sem nada. Morre tudo. É um crime, deviam pôr esses caras na cadeia. Isso é um crime mesmo."

As marés revolvem o fundo lodoso dos estuários e transportam para o mar nutriente e matéria orgânica assimilável. Normalmente, a água do mar é mais fria do que a água doce do estuário. Por isso ela é mais "pesada" e entra nos estuários por baixo da água dos rios, revolvendo o lodo. É nas marés vazantes que o mar recebe uma carga significativa de nutrientes e matéria orgânica.

 

Outro fator que influencia o aporte desse material para o mar é a chuva. Altos índices pluviométricos significam, além de um aumento de água doce no estuário, um aumento considerável na remoção de matéria orgânica do manguezal e de todo o estuário. Quando a chuva é expressiva, o manguezal mostra uma de suas importantes contribuições para o equilíbrio na relação mar-continente.

 

Os estuários que têm seus bosques de mangue preservados apresentam uma capacidade muito maior de acomodação das águas e principalmente de retenção dos sedimentos terrígenos. Já os estuários que tiveram seus manguezais ocupados pela urbanização sofrem muito mais com a erosão: a zona costeira do mar recebe o excesso do despejo, com suas nefastas conseqüências para o equilíbrio da vida marinha.

 

Grande parte das espécies de peixes, crustáceos e moluscos, além de usar o abrigo do manguezal para seu desenvolvimento na fase jovem, se alimenta, nas regiões costeiras, dos nutrientes provenientes dos manguezais. Esse fenômeno se repete em todos os estuários, ao longo dos mais de 20.000 km² de manguezais do litoral do Brasil. Apesar da ocupação desordenada, o Brasil ainda tem muitas reservas desse ecossistema produtivo.

 

No restante da América do Sul, os manguezais ocorrem quase exclusivamente nas zonas equatoriais. As correntes frias do Oceano Pacífico e a proximidade do maciço andino, aliadas às baixas temperaturas, dificultam o desenvolvimento das espécies características do manguezal. O manguezal é um fenômeno planetário típico das zonas tropicais. São mais de 160.000 km² no mundo inteiro, distribuídos entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio. 

 

A história dos bosques de mangue vem de longe. As teorias supõem um centro de origem dos manguezais na região indo-malaia, há cerca de 70 milhões de anos. As espécies teriam se dispersado seguindo uma tendência de migração do leste para o oeste.

 

O sistema reprodutivo das espécies de manguezal é bastante característico. As espécies típicas de mangue produzem embriões que só se desligam da planta-mãe quando já se tornaram pequenos indivíduos completos, os propágulos. A nova planta pode começar o seu desenvolvimento imediatamente ao cair e se fixar na lama, ou pode permanecer flutuando até encontrar local próprio para o seu crescimento.

 

"Na praia do Marujá (ilha do Cardoso, em Cananéia, SP), localizada numa região estuarina, é comum encontrarmos propágulos e plântulas de mangue siriúba, normalmente transportados pela maré. Mas ambientes como a praia não são muito propícios para que as plântulas se desenvolvam. Muito resistentes, algumas vezes elas são transportadas durante meses, até que encontram um bom ambiente para o seu desenvolvimento” 

 

Talvez tenha sido graças a essa resistência e capacidade de flutuação que alguns propágulos e plântulas de mangue branco navegaram mais de 300 quilômetros até o arquipélago de Fernando de Noronha.

 

Este é um raro exemplar de manguezal oceânico (foto), que se desenvolveu sustentado pela água da chuva armazenada em depressões da baía do Sueste. As marés altas fazem o resto, propiciando a variação de salinidade necessária e estabelecendo a ligação temporária desse pequeno manguezal com o mar. A baía do Sueste tem a proteção de um banco de corais contra a forte ação das ondas, propiciando abrigo para os pequenos peixes e para as tartarugas.

 

A equipe do projeto Tamar acompanha as tartarugas, que freqüentam a baía em períodos de desenvolvimento, como abrigo e como ponto de descanso em suas jornadas migratórias.

 

Em Noronha, o manguezal não está completamente protegido. O turismo crescente na ilha aumentou a necessidade de água para o consumo, ameaçando bloquear o sistema natural de captação de água das chuvas e pondo em risco a sobrevivência deste ecossistema.

 

A variação de salinidade nos estuários, ao mesmo tempo em que cria grandes dificuldades de adaptação para plantas e animais, gera um ambiente bioquímico todo especial. Nos casos de Cananéia, da reserva da Juréia e da região da ilha do Cardoso, litoral sul do estado de São Paulo, fica evidente a transição da mata de restinga para o bosque do manguezal.

 

"Na faixa de transição do manguezal com o ecossistema adjacente, um ecossistema de terra firme, encontramos espécies que não são típicas de manguezal, como algumas ciperáceas e o ibiscus, este bem típico de áreas de transição praticamente de todo o Brasil. E se nós formos andando em terra firme, já começaremos a ver espécies de restinga, como o jerivá e a aroeira. Na faixa de transição, em Cananéia, SP  a salinidade é bastante baixa, devido à drenagem da água que vem da restinga.

  

No outro extremo do bosque, a espécie mais presente na linha d'água é uma gramínea verde clarinha, que dá um recorte delicado à borda do manguezal. É a spartina, uma grande auxiliar nos processos de retenção de sedimentos e expansão do manguezal. Na franja dos bosques normalmente ficam as árvores mais desenvolvidas, devido à maior freqüência de inundação e maior aporte de nutrientes.

 

"Na franja do bosque de mangue podemos observar que há um aumento do desenvolvimento estrutural em relação ao bosque de transição com terra firme. Se nós medirmos uma Rizophora mangle, um mangue vermelho veremos que é uma árvore com perímetro de 18 centímetros e uma altura de 10 metros, aproximadamente. E a salinidade também é diferente. O sedimento aqui é lodoso, diferente do sedimento da transição, que é mais arenoso. Se medirmos, veremos uma salinidade de 25 mil partes por mil, bem mais alta do que a da faixa de transição."

Não é nada fácil conviver com o manguezal - os pesquisadores de campo que o digam -, mas observando as comunidades locais podemos encontrar os encantos desse ecossistema.

 

E é cultural essa visão talvez deturpada, de que o ambiente é insalubre. É uma influência européia. O europeu não tem o manguezal junto de si. Quando veio ocupar as áreas tropicais, ele trouxe na bagagem uma cultura de aversão a esse sistema, que predominou até a década de 70 (do século XX).

 

A história da cultura brasileira pode não dizer muito sobre o manguezal e seus habitantes, mas as marcas dessa história, inclusive a dos ancestrais indígenas, ainda estão muito presentes nessas regiões. Os sambaquis são marcas visíveis de que a população tem há muito tempo uma grande integração com o ecossistema manguezal.

"Sambaqui, na verdade, é uma evidência pré-histórica que mostra bem como era a região há milhares de anos. O mais interessante é a altura em que muitas vezes a gente encontra sambaquis, muito distantes do mar, do manguezal e do estuário. Isso mostra que o mar esteve, na verdade, num nível mais alto ao atual. Conforme ele foi regredindo, foi surgindo essa formação geológica presente hoje no estuário".

 

Muitos pescadores montaram seus ranchos sobre as marcas da história cultural das tribos indígenas originais que habitaram o litoral do país.

Os caiçaras ensinam aos seus filhos as técnicas de pesca que mais respeitam as características dos estuários. Essas técnicas de pesca são milenares, fruto da transmissão oral, do intercâmbio cultural, da miscigenação racial.

Muito antigas também são as primeiras referências históricas sobre plantas de manguezal. As raízes do mangue vermelho eram descritas como candelabros pelos generais do rei macedônio Alexandre Magno, por volta do ano 325 antes de Cristo.

No Brasil, as referências mais antigas são atribuídas ao historiador português Gabriel Soares de Souza, em seu "Trabalho Descritivo do Brasil", impresso em 1587. Desde então muito se aprendeu sobre o manguezal, sobre suas funções de proteção da linha de costa, de filtro biológico e de berçário de recursos pesqueiros. Mas ainda há muito que fazer para estimular atitudes positivas de preservação e utilização desse ecossistema.

"Eu sinto que grande parte do desconhecimento dos nossos recursos naturais vem do processo educativo. Nós nos preocupamos em consultar vários livros didáticos e, se você vê a parte do livro didático reservada para manguezal, você fica abismado ao ver que o espaço dedicado ao assunto é mínimo. E estamos falando de um ecossistema que é representado, no litoral brasileiro, do Amapá até o sul de Santa Catarina. Então não é passado ao nosso aluno, ao brasileiro de amanhã, que nós temos manguezais. Além disso, há uma confusão muito grande, como se manguezal fosse o lugar onde nascem as mangueiras. Isso é objeto de nossa preocupação."

O Brasil possui uma das maiores áreas de manguezal preservadas do planeta. Além de ser motivo de orgulho, o privilégio de conviver com esse ecossistema deve motivar a pesquisa, o conhecimento e a circulação desse saber na sociedade. Quem convive com o manguezal aprende que está diante de um ambiente de renascimento, de recriação.

Ser Biólogo...

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